Mostrando postagens com marcador Capítulo 4 - O sonho da minha vó e o meu sonho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capítulo 4 - O sonho da minha vó e o meu sonho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

4.1 - O Natal no presépio

O casal de pombos
– Vó Zuza, posso fazer uma pergunta sobre outro animal do presépio?
– Claro, Miro! Mas sobre que animal você quer saber?
– Sobre os pombinhos.
Mas já não há nenhum pombinho no presépio de Deus!
– No da senhora, há. Olhe, ali tem um casal de pombinhos. Não é à toa, né, vó?!
– Miro, você promete não contar a ninguém?
– Prometo.
– Pois não é à toa, não. A pomba é figura das pessoas simples, dos pequeninos, que têm a alegria de entender as revelações de Deus. E, além disso, o próprio Espírito Santo escolheu uma pomba para o representar. Por tudo isto, eu gostaria de ser uma pombinha de Deus. E sem a companhia do seu avô eu não fico.




NATAL NO PRESÉPIO
Estando eles ali na gruta, completaram-se os dias para o nascimento do Menino Jesus. E Maria deu à luz o seu filho primogênito e, envolvendo-o em panos, reclinou-o na manjedoura.
– Assim foi o nascimento de Jesus.
– Mas, vó Zuza, a senhora deteve-se tanto nos preparativos e depois só diz isto sobre o momento mais importante!
– Miro, quanto ao Natal, só Nossa Senhora poderá explicar exatamente o que aconteceu. Portanto, só no céu saberemos de tudo tintim por tintim. Eu só posso contar o que está no Evangelho.
– Mas a maior parte das coisas que a senhora me contou até agora não está na Bíblia! Tem certeza de que não poderia contar um pouco mais do Natal?
– Eu, como você, também queria saber mais sobre o Natal, e sempre pensava nisso nas minhas orações diante do presépio. Até que um dia soltei a imaginação e sonhei acordada com o dia de Natal...
– Vó Zuza, conte-me então como a senhora imaginou o Natal.
– Ora, você sabe como a minha imaginação é fértil.
– Não tinha reparado, vó!
– Miro, deixe de ironias, senão não lhe conto o resto.
– Por favor, era só uma brincadeirinha!...
– Você sabe que os sonhos nem sempre são de confiança. Portanto, se contar o meu sonho a alguém, eu desminto tudo.
– Vó Zuza, sei que somente os sonhos de Deus são realidade; os nossos, não.
– Está bem. Se é assim, posso contar-lhe o que se passou. No sonho, fui parar em Belém.
– A senhora foi a Belém?!
– Uai! Você não sabe que para a imaginação não há limites nem de tempo nem de lugar?
No começo, pensei que Deus queria que eu estivesse ali pela minha vasta experiência: já tinha tido os meus treze partos, e havia-me tornado a parteira mais conhecida da cidade. Mas depois descobri que não era nada disso. Ele apenas queria que eu ajudasse Maria nos primeiros cuidados com a criança, como ajudei todas as minhas filhas e noras.
Apresentei-me à Sagrada família como a parteira de Belém, que vinha ajudar Maria no que fosse preciso. José gostou muito da minha presença e ficou um pouco mais tranqüilo ao saber da minha longa experiência.
Quando chegou a hora, Maria avisou-me:
– Acho que Jesus vai nascer.
– Tem certeza?
– Tudo indica. Olhe ao seu redor.
Algo surpreendente tinha acontecido: José, que estava lá fora juntando lenha para a fogueira, estava parado, agachado para pegar um galho caído no chão. O burro, a vaca e a ovelha estavam também imóveis, como se brincassem de estátuas vivas. Eu disse a Maria:
– Acho que o tempo parou.
E Ela respondeu-me:
– Sim, a eternidade de Deus está entrando agora no nosso mundo!
Corri para o lado dEla e pude observar tudo. Jesus começava a nascer, mas não como os outros bebês. Como se estivesse no estado glorioso, atravessou milagrosamente o corpo de Maria, como atravessaria mais tarde as paredes, depois de ressuscitado. Parecia que o seu corpo estava composto apenas de luz. E desprendeu-se da sua Mãe como uma fruta madura se solta da árvore que a nutriu.
– Vó Zuza, então quer dizer que o Menino Jesus nasceu glorioso?
– Miro, não disse isso. Disse apenas que nasceu milagrosamente. Mas eu podia segurá-lo. E tive a honra – lembre-se de que era um sonho! – de ser a primeira pessoa a tomá-lo no colo. Era a Criança mais bonita que já vi. Transmitia uma paz e uma alegria que não sou capaz de descrever.
– O Menino Jesus era diferente de nós?
– Não, Miro, aparentemente não tinha nada de diferente, era igualzinho a nós! Posso afirmar que o seu corpo era exatamente como o corpo dos meus sete filhos homens, quando nasceram. Só que era mais perfeitinho da cabeça aos pés!
Logo em seguida, passei o Menino a Maria.




Nesse instante, olhei para os animais do presépio e eles continuavam imóveis, sem reação. Foi então que tive uma visão surpreendente. Ao olhar para o burrinho, vi milhares ou talvez milhões de pessoas que se identificarão com o burrinho, com uma vida de serviço a Deus e aos outros. Ao olhar para a vaquinha leiteira, vi um mar de pessoas que, com a sua vida, exemplo e ensinamentos, alimentarão inúmeras outras pessoas com a Palavra de Deus. Olhando para a ovelha, vi uma avalanche de pessoas mansas e dispostas a qualquer sacrifício por amor a Deus e aos outros. Compreendi que todas essas pessoas serão as que adorarão Jesus no presépio ao longo de toda a história e até o fim dos tempos.
Voltei-me para Maria com o Menino nos braços e emocionei-me ao observar a forma como Ela tomava, abraçava e olhava o seu Filho Jesus. Percebi que o amava de todo o coração. Via o corpinho do seu bebê e ao mesmo tempo reconhecia nEle a sua divindade, por mais que a sua glória estivesse oculta. Era a primeira vez que Maria via o rostinho de Deus, e adorava-o totalmente extasiada!
Nesse momento, ouvi o choro forte de uma criancinha totalmente saudável. E, ao som do choro de Jesus, o tempo voltou a correr para os outros seres.
José veio correndo, pois lá de fora ouvira o choro de Jesus. 




Maria passou o Menino para os seus braços fortes. Todos estavam emocionados por ver Deus tão pequenino e desvalido. José, que sempre parecera o mais forte de todos, chorava e ria ao mesmo tempo, como uma criança emocionada que recebe o presente que mais esperava na vida! Depois de contemplar o Menino Jesus por algum tempo, devolveu-o a Maria.
Os animais estavam eufóricos. A vaca reclamava com o burro que as suas grandes orelhas não a deixavam ver bem a cena. O burro perguntou-lhe:
– E onde está a ovelha? Aonde ela foi parar?
Alba tinha saído para chamar as outras ovelhas. Fazia tempo que tinha elaborado um plano para que o Menino não fosse posto nas palhas da manjedoura, que podiam pinicá-lo. Mas as ovelhas tinham-se espalhado um pouco, e assim Maria envolveu o Menino em panos e reclinou-o na manjedoura. Mas ele não estava bem ali, tanto que voltou a chorar.
De repente, várias ovelhas saltaram a cerca lateral do presépio e alinharam-se ao lado da manjedoura, formando com os seus corpos um berço quentinho e acolchoado. José e Maria olharam um para o outro, aprovando a iniciativa das ovelhas. Nossa Senhora pôs o Menino no berço-de-ovelhas, e logo Ele parou de chorar.




As ovelhas, além de servirem de berço para o Menino Deus, deram também a sua lã para que Maria pudesse tricotar roupas bem quentinhas para Jesus. A vaca e o burro funcionaram muito bem como grandes radiadores no presépio, elevando a temperatura do ambiente. A vaca forneceu leite abundante para a Sagrada Família, que depois serviu de matéria prima para os saborosos queijos e doces-de-leite que eu ajudei a fazer na casa da vizinha. E o burro serviu não só no caminho para Belém, como também em todas as demais viagens da Sagrada Família.
Naquela noite, todos os anjos foram visitar o presépio de Deus, embora não se tenham manifestado de forma corpórea para não assustar o Menino com tanta gente desconhecida de uma só vez. Ao voltarem para o céu, todos felicitavam Fanuel pelo seu excelente trabalho.
– Vó Zuza, acho que agora compreendi bem a missão dos animais e também a sua missão no presépio. Que bela história a senhora me contou! 

4.2 - Os animais no Céu

OS ANIMAIS NO CÉU
– Ah, mas a história ainda não terminou. Falta dizer algo importante sobre os animais do presépio.
– Então continue, vó Zuza, pois quero saber tudo.
Nesse momento, porém, a minha mãe passou por ali dizendo:
– Valdo, pegue as suas coisas, que já está na hora de irmos embora. Precisamos também passar pela casa da sua avó Aline.
– Mas, mãe, a vó Zuza ainda não terminou a história dos animais do presépio!
A vó Zuza interveio:
– Miro, é melhor você fazer o que a sua mãe lhe diz. Já estamos há mais de uma hora conversando, e você precisa também ver a sua outra avó neste dia de Natal. Não há problema, no ano que vem eu termino a história.
– Não sei se agüento a curiosidade até lá!
– Então faça o seguinte: pegue a Bíblia e leia o livro do Apocalipse, pois tudo o que eu ia lhe contar está lá.
 – Está bem. Mas se eu não entender bem alguma coisa, a senhora explica-me depois.
Naquela mesma noite, cheguei em casa e fui ler o livro do Apocalipse. Para dizer a verdade, não entendi muita coisa, mas fiquei tão impressionado com tudo o que li que acabei tendo um sonho incrível naquela noite. Nesse sonho, fui ainda mais longe que a vó Zuza: fui ao céu!
Quem me recebeu lá foi um anjo que se apresentou assim:
– Muito prazer. O meu nome é Fanuel.
Eu, surpreso, respondi:
– Eu me chamo Miro e já conheço você de longa data.
– Não acredito!
– O seu nome não significa “Aquele que vê a Deus face a face”?
– Como sabe? De onde me conhece?
– Uma pessoa querida contou-me muitas coisas sobre você!
– E como se chama essa pessoa?
Fiquei sem jeito de dizer que se chamava Zuza e disse o seu verdadeiro nome:
– Maria de Jesus.
O anjo ficou tão contente ao ouvir isso que deu uma pirueta no ar! A sua reação pareceu-me desproporcionada, mas logo me dei conta de que ele tinha confundido Maria de Jesus, a Zuza, com a própria Virgem Maria! Mas fiquei sem jeito de esclarecer a confusão e deixei passar. Não sei se foi por causa dessa confusão, mas o fato é que Fanuel me tratou especialmente bem. Foi-me guiando e explicando tudo no céu.
Aproveitei a sua boa vontade para perguntar-lhe algo que me intrigava:
– Fanuel, eu li o Apocalipse, e ali se diz que no céu há animais; aqui, porém, não vejo nenhum: só anjos e pessoas humanas. Onde estão os animais?
O anjo respondeu-me:
– Pelo que sei, pelo menos até o fim dos tempos, quando houver um novo céu e uma nova terra, propriamente não haverá animais no céu. Mas as suas figuras já estão presentes aqui.
– Como assim? Não estou entendendo!
– Repare bem. Se você fixar o olhar em algum dos santos, verá a figura do animal com que esse santo mais se identificou. Experimente, por exemplo, com São João Evangelista, que está logo ali à sua frente.
Depois de olhar para São João por alguns momentos, de fato passei a ver uma grande águia, forte e belíssima. Fanuel explicou-me:




– A águia é figura dos místicos, que voaram alto na contemplação de Deus quando ainda estavam na terra.
– Que outros santos são águias?
– Só citarei alguns: Agostinho, Bento, João da Cruz... E agora olhe para Lucas. Que animal você vê?
– Vejo um touro fortíssimo. Fanuel, nem precisa explicar-me essa figura, pois eu já conheço bem o que ela representa. Mas posso ver o próprio Jesus Cristo?
– Claro que sim. Todos os que estão no céu têm esse direito, mesmo que estejam apenas em sonhos.
Olhei fixamente para Jesus, e vi um lindo cordeiro, todo branco, sem mancha alguma. Percebi que do seu corpo irradiava a luz que iluminava a todos os anjos e santos no céu, e que a luz dos santos não passava de um reflexo da sua luz, assim como a luz da lua é um reflexo da luz do sol. Disse a Fanuel:
– Eu já sabia que Jesus só podia ser o Cordeiro!
– E você não quer olhar para Maria, Miro?
– Claro, Fanuel!
Olhei para Maria, que estava do lado direito de Jesus, e Ela tornou-se aos meus olhos uma linda ovelhinha, muito parecida com o Cordeiro, toda branca também. De todas as ovelhas e carneiros do céu, só Jesus e Maria eram assim: sem nenhuma mancha no corpo. Mas, intrigado, perguntei a Fanuel:
– Que Nossa Senhora é mansa e doce, isso eu já sabia. Mas pensava que ovelhas fossem principalmente as pessoas que morreram mártires.
– Você tem razão. Só que Maria, por ter acompanhado Jesus na sua paixão, sofreu tanto que bem se pode dizer que foi mártir, embora não tenha morrido.
Olhei para o outro lado de Jesus e vi São José, que me apareceu como um burrinho encantador. Que brilho se refletia em todo o seu corpo!
De repente, vi um espetáculo maravilhoso: uma revoada de centenas de pombas.




– E essas pombas, Fanuel, quem são?
– São as pessoas que se destacaram por conservarem a alma pura e inocente, sobretudo por viverem a castidade. São principalmente as pessoas virgens.
– Xi, acho que a minha avó Zuza escolheu o animal errado para si! Afinal, teve treze filhos!
– Não, Miro: com esse número de filhos, a sua avó certamente será também uma pombinha no céu. Entre as pombas, há muitas pessoas casadas que se destacaram pela castidade no casamento e pela generosidade com relação aos filhos.
Voltei-me para o lado e vi um santo que não conhecia. Olhando fixamente para ele, vi um burrinho com uma imensa estrela na testa, semelhante a tantos outros burrinhos do céu, mas que tinha algo de diferente. Todo o seu corpo estava repleto de incontáveis estrelas de diverso tamanho e intensidade.
Perguntei “baixinho” a Fanuel:
– E quem é esse santo?
– Por que você não lhe pergunta pessoalmente?
– Bom dia, sou Valdomiro, mas pode chamar-me de Valdo ou Miro. E o senhor, como se chama?
– Todos no céu me conhecem como burrico sarnento!
Fanuel, que não gostou daquela apresentação, interveio. E disse ao santo:
– Josemaria, quantas vezes terei de dizer que as manchas que você traz na pele não são sarna, mas as estrelas das vocações das suas filhas e dos seus filhos, gente humilde que, no meio do seu trabalho diário, nunca tinha pensado que Deus quisesse servir-se deles e delas para nascer no coração do mundo. Como eles são fruto da sua oração e mortificação, Deus quis imprimir essas estrelas na sua pele, como uma condecoração!




Fiquei muito impressionado, e desejei um dia ter o meu corpo coberto de estrelas como o dele.
Nesse momento, acordei do sonho, desejando encontrar-me logo com a vó Zuza para ver se o final da história dos animais no presépio era mesmo aquele. Mas a vida, infelizmente, levou-me para longe da minha avó Zuza, e nunca mais pude passar um Natal com ela.

Se hoje você lê o “causo” dos animais do presépio, saiba que o narro por dois motivos. Primeiro, porque a vó Zuza voou para o céu este ano, e eu me sinto na obrigação de transmitir a herança que ela me deixou ao resto da família, que está espalhada por esse mundo de Deus. E principalmente porque, no dia da sua morte, para minha surpresa, pousou na janela do meu quarto um pombo-correio que trazia na pata uma mensagem! Desenrolei o papelzinho e li: “Se você quer vir para o céu, saiba que ainda faltam canarinhos-da-terra por aqui. Os canários-da-terra são as pessoas que vão pelo mundo cantando as maravilhas do presépio de Deus”.




Quando olhei de novo para o pombo-correio, ele já tinha voado para o céu.
A você, que acaba de desvendar com a vó Zuza muitos dos segredos do presépio, faço um convite: não tenha receio de ser um burrinho, uma vaquinha ou uma ovelha no presépio, pois assim poderá sê-lo no céu. Caso não se anime a ser nenhum dos animais anteriores, pelo menos cante comigo na terra as maravilhas do presépio de Deus, já que ainda faltam muitos canários-da-terra no céu!